domingo, 23 de novembro de 2008

Traição

Eram 7h16min da manhã, meu sono foi interrompido pelo telefone.
_ Então eu consegui dormir alguma coisa!
Aquilo parecia incrível.

Fora deitar às 2h10min e, apesar do sono latente, não conseguia me concentrar na cama. Só no que descobrira. Ah, o que eu descobri!

Meu coração estava tão acelerado que eu conseguia ouvi-lo. Isso só acontece em duas circunstâncias: quando eu pratico algum exercício aeróbico à exaustão ou quando estou realmente nervosa.
A verdade é que não saíra do escritório aquela noite, posso jurar não ter praticado exercício algum.

Virava de bruços e sentia como se todo meu corpo estivesse sendo levantado por um ponto pulsante em contato com o colchão, localizado mais ou menos sobre meu seio esquerto.

Deitava com a barriga virada para cima para cima, não conseguia respirar. As novidades haviam sido como um soco no estômago: sentia dor física, náusea, falta de ar.

Naquela noite eu tinha uma pizza inteira pela frente, chocolates, muitas das coisas que gosto de comer. E simplesmente não consegui. Normalmente via as pessoas magras reclamando por não sentirem fome quando estavam tristes ou nervosas, mas comigo sempre acontecia o contrário: a ansiedade me fazia querer comer cada vez mais. Na noite passada, tudo era diferente. Eu simplesmente não conseguia me imaginar deglutindo qualquer coisa que não fosse esse sentimento de ódio que eu passara a nutrir.

Virava para o lado direito, para o lado esquerdo. Nada é confortável.

Eu podia escutar a sua voz, imaginar a deplorável cena. Imaginar a cena... Era só fechar os olhos para ver tudo acontecendo. Pensar no quanto eu fora uma idiota durante todo o tempo em que estivemos juntos.

Eis que todos os espíritos à minha volta começam a soprar baixinho nos meus ouvidos coisas terríveis. "Como você se deixou enganar?", "Por que haveria de ser diferente justo com vc?", "Você sempre soube com quem estava lidando...", "Foi por isso que ele tentou afastá-la de todos os seus amigos". Todas as histórias mal contadas, todos os argumentos incoerentes passavam a fazer sentido. Algo como "A-rá! Eu sabia, eu suspeitei desde o princípio!".

Lembrei-me do momento em que rasguei todas as fotos que tinha dele em minha casa. Perdedora. Passei a sentir-me patética, enganada. Tão ridículo...

Patético é ele, que pisou numa pessoa que tentou fazê-lo feliz o tempo todo. Menosprezando-me o tempo inteiro, fazia com que eu realmente acreditasse estar na presença de um semideus. Nunca errava, era eu a culpada por todos os nossos problemas. Todos os problemas eram provocados por mim. Por eu nunca ouvi-lo. Por não "respeitar" nosso relacionamento. Por querer me aproximar de pessoas que só queriam me prejudicar: "Será que você não enxerga que ________ (qualquer nome, independente do sexo) só quer nos prejudicar?" _ Tão vítima sempre!

E eu cheguei a fazer os planos de uma vida inteira com uma pessoa assim. Com uma pessoa que, concluo, definitivamente eu não conheço. Não conheço! Apaixonei-me por uma figura idealizada muito distante dessa realidade que me foi ocultada por tanto tempo. Ou que estava lá o tempo todo e somente eu não consegui enxergar.

As vozes da minha cabeça continuavam, incessantes. Lembro-me de um ditado: "Deus dá o frio conforme o cobertor". Se estou sofrendo mais é porque ainda posso crescer com isso. Vai saber?






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Essa é apenas uma incursão no universo da ficção, não se trata de um post autobiográfico.
Eu e meu namorado estamos bem, obrigada. ;)

5 comentários:

Mari disse...

Muito bem escrito Carol.
Bjks.

Cessel disse...

Foi o post que você escreveu durante a aula de inglês?

Kérow More Ice disse...

Mari - muito obrigada!

Cessel - ainda não.

Fábio Rossi disse...

pegadinha do mallandro!

Kérow More Ice disse...

Achou que eu tinha levado chifre, né? :P